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Castelo de Vide,em perspectiva domingueira

FDS_04.10.08 - Dia_3


É tempo de iniciar o caminho de regresso a casa, são passados três dias em ambiente tranquilo e repousante, Portagem, Marvão, Castelo de Vide e o Parque Natural da Serra de São Mamede, são lugares aparentemente dourados e com tudo para serem felizes os industriais de turismo com investimentos na região, o que verdadeiramente parece não acontecer. Apesar de serem lugares de eleição para quem faz das férias, uma oportunidade de descanso, que obviamente, como as demais necessidades, é preciso senti-la!
Diz-se que trabalhamos pouco e mal , o que em minha opinião, é muito consistente com a energia e vitalidade demonstrada e desbaratada pela esmagadora maioria de nós ( e não só), entre a agitação das multidões que sempre se norteiam a sul, nesses poucos dias do ano com direito ao repouso.





Castelo de Vide é uma vila com uma ambiência algo estranha no contexto da arquitectura alentejana, é a expressão mais ou menos dissimulada, da presença de uma cultura diferente, com uma economia mais mercantil, menos ligada á terra, menos agrícola. O estabelecimento da Inquisição e a expulsão dos judeus de Espanha por Fernando e Isabel, contribuíram para o crescimento da judiaria de Castelo de Vide, que mantém na arquitectura e toponímia das suas ruas o testemunho dessa presença, algo que a coloca fora do traço identitário que se respira nas vilas alentejanas, e lhe empresta um ar diferente, misterioso, de uma história de vicissitudes quase imperceptível.









Portas,mais portas, que fecham e se fecham ao exterior,...






,janelas, só em pisos superiores...






A sugestiva "Sombrinha"






Castelo de Vide



Uma janela de liberdade






E a liberdade de estacionar, responsávelmente, como se observa sem qualquer razão para uma discriminação negativa, nem necessidade de "falso-privilégio" de estacionamento em lugar exclusivo para autocaravana.

Fim-de-semana de três dias, no lugar certo,com as condições ideais, são quanto basta para recuperar energias e ficar preparado para mais uma dura temporada de trabalho intenso,que se aproxima até ao fim de ano, época com destino marcado para a Côte d´azur, em autocaravana.



Marvão em tempo de “Al Mossassa”.

FDS_03.10.08 - Dia_2

Um soalheiro dia de outono! Com a autocaravana estacionada debaixo de uma velha oliveira, apetecia um passeio de moto,... e lá fomos nós para Marvão, ver como paravam as festas islâmicas da vila. No caminho, a estrada contorce-se nas vertentes. A cada curva Marvão cresce. A linha de muralhas ganha nobreza e uma dimensão quase inexpugnável. Em torno a paisagem abre-se e, nas serranias, toma vulto o pico da Serra de São Mamede, para lá dos 1000 metros de altura chega-se a um extraordinário mirante do alentejo e de terras de Espanha.

Parque de estacionamento cheio, muitos automóveis , algumas caravanas e muita polícia a tentar garantir a fluidez e a ordem. Passar a Porta de Rodão e estacionar já dentro das muralhas é nesta altura um privilégio só acessível a motociclistas.

Contida no tempo e no edificado entre muralhas, tomam gradualmente forma, fachadas, janelas, telhados, varandas, portas, calçada de pedregulhos toscos, tudo excelentemente conservado, emergindo de um mundo já sem os verdadeiros personagens, parecendo algures no tempo, terem esquecido haver vida para além daquelas muralhas,...num nostálgico abandono de tempo passado, ímpossível de reabilitar para novas gerações senão como arqueologia urbana, a ocupar e viver, a espaços, por turista ocasional,... a agenda de eventos marca a vida do lugar e a economia de resilientes, poucos. O passado faz-se com histórias de muitas partidas, quer para as grandes cidades, quer para a emigração.

“Malvão”, ou nem por isso, é o que nos diz as histórias antigas e novos projectos de gerações da família, pela voz da simpática proprietária e talentosa cozinheira, do muitíssimo recomendado " Varanda do Alentejo", onde tardiamente, mas ainda a tempo, abancámos para uma genuína e deliciosa carne de porco à alentejana, com um genuíno tinto do Redondo,...redondinho!

A calma que paira nesta vila, é por si só um bom motivo para aqui passar um fim-de-semana.

Mas as festividades já se faziam sentir com o entusiasmo esperado, estava montada a encenação do acontecimento, a “Al Mossassa”. Uma festa islâmica que reconstituiu a ambiência das vendas de uma época distante e entretém como espaço aberto à imaginação e à história, para além de repleto de boas recriações e animações interagindo com os visitantes.

Hora de tomar um perfeito e digestivo chá-verde, com direito ao copo para recordação e de abancados na tenda árabe, ver o belíssimo desfile passar....

A noite caía e o pôr-do-sol pintava a atmosfera para uma sugestiva Fada em camelo evocar a mística do quarto-crescente lunar.


Excelente remate de festa,...
Nós montámos na nossa Zongsheng e evocámos, montanha abaixo, a direcção do camping da Asseiceira, para mais uma bela noite embalada nos cânticos de chocalho e mées da boa vizinhança.
Amanhã em Castelo de Vide.

Portagem

FDS_02.10.08 - Dia_1



Dia 2 de Outubro,....17 horas rumo: Alto Alentejo!



Primeiro fim-de-semana em autocaravana. Propósito, encontrar algum sossego, sentir algum do tempo a passar,..lugares sem stress, com silêncios e com sorte talvez até algum tédio.





Chegada à Portagem, por volta da meia-noite de quinta-feira. A noite foi passada entre arvoredo à margem da piscina fluvial da Portagem, localidade situada no sopé do monte que suporta a bela vila de Marvão. Situada em plena Serra de São Mamede e a escassos quilómetros de Espanha, a tranquila Portagem foi abrigo seguro e repousante a dois autocaravanistas esgotados que ali quiseram pernoitar. A sensação de segurança foi confirmada pela presença de uma brigada de polícia que por vezes ali passava.





O acordar fez-se já pela hora de almoço do dia 3, e ali bem perto, depois de atravessado o arco romano, no pequeno bar junto ao rio Sever petiscámos um prato de apetitoso "Leitão Frito em d'vinha de alhos", acompanhado de pão e vinho da região. Uma coisa 5*,... quase oferecida.












Na Portagem o rio Sever de águas límpidas e frias é utilizado como praia fluvial, e o complexo de piscinas e parque de lazer está muito bem conseguido, tendo resultado num belíssimo ponto de repouso e lazer não só para as gentes da terra, mas também para quem a visita. Hoje são nossos hermanos e reformados espanhóis que vêm apanhar um cativante sol de outono.








A corrente vai mansa nesta época do ano e o açude retém as águas, acomodando-as numa grande e bela piscina fluvial. Próximo, a ponte e a Torre, tornada homenagem aos milhares de judeus que por aqui passaram fugidos de Espanha. Na Portagem, assim chamada, porque nela os judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, pagavam a "portagem" para entrar em Portugal pela ponte romana, ainda existente no local, junto ao complexo de lazer, bem como a torre militar que, então, fazia a fronteira.














Acima, ao fundo, na escarpa granítica a pique as muralhas, o castelo e o casario de Marvão.
As escarpas tornam-se espanto redobrado quando percebemos que as alturas revelam um esforço humano colossal com onze séculos. Ali, onde supomos habitar somente o vento, percebemos que a rocha suporta muralhas. Atrás, destas, assomando timidamente, o ocre dos telhados e uma ou outra torre alva mais atrevida. Vive ali gente, entre as nuvens, o voo das aves e os ventos das alturas. Em breve, durante a tarde do dia 3, a estrada sinuosa, encaracolando monte acima, leva-nos até ao coração da vila de Marvão.
O monte que suporta Marvão, no coração do Parque Natural da Serra de São Mamede, obriga-nos a, invariavelmente, torná-lo protagonista de quase todas as histórias do lugar. A Serra do Sapoio, é dramatismo geológico, esforço acrescido da natureza para congeminar relevos.






Depois do almoço, fomos ao encontro do local programado por nós para as pernoitas seguintes, o Parque de Campismo Rural da Asseiceira, (de um cidadão inglês, que mal falava o português, pois estava cá há sómente 6 meses, ex-condutor de longo curso, cansado, com visão e oportunidade na construção de uma vida alternativa- radicado agora em portugal), situado perto de Santo António das Areias, na encosta norte de Marvão, onde se ouviam além do frequente cantar dos pássaros, as "vozes" tão interessantes das vacas, cabras e ovelhas que pastavam por aquelas bandas. Uma conversa simples e agradável...


Posted by Picasa


http://www.campingasseiceira.com/pt/newindex.htm


O camping Asseiceira, não consta de roteiros, nem tem classificação oficial, mas nós recomendamo-lo como de 5*, para quem aprecie algum sossego e ar puro,...com a sombra de velhos chaparros e velhas oliveiras, cadeirinha na rua, olhar o monte e Marvão, ensaiar novas leituras,... com o pôr-do-sol recolhimento a um jantar de mais uma dose "Leitão Frito em d'vinha de alhos", desta vez com um branco fresquinho de Favaios, recolhido na adega cooperativa do próprio em 2003 e uma ligação ao escritório em LogMeIn, para um pequeno serão de trabalho,graças à ligação wireless gratuíta, enquanto pé-de-vento, descobre a história e estórias destas paragens, e traça rumos mais detahados para o dia seguinte.





Já tinhamos passado diversas vezes em Portagem, mas dedicar-lhe um merecido dia , sem pressas, e desfrutar da beleza dos cantos e recantos é privilégio de autocaravanista ! Supreendo-me, com o mesmo agrado , com que à anos atrás me surpreendia, com outros autocaravanistas, que encontrava, em recantos da minha zona, nos lugares mais imprevisíveis e com matrículas a indicar longinquas origens,...pareciam-me e continuam a parecer-me senhores de todo o tempo do mundo ! Como que a dizer que, só sem pressas é possível chegar tão longe.