Rocamador

23.08.08 - Dia_20


Em galego-português, que no Século XIII era a língua fundamental da lírica culta em Castela.


Como Santa Maria livrou un mercador do perigoo das ondas do mar en que cuidava[morrer] u caera da nave.



A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado,ben pode valer a todo perigoado.


Ca per ela foi a morte destroyda
e nossa saude cobrada e vida,
tod' est avemos pola Sennor comprida.
Pois un seu miragre vos direi de grado
A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...



Que fez esta Virgen santa e Reynna,

que é dos coitados todos meeza;

contar-vo-lo-ei brevement' e agynna

quant' end' aprendi a quen mio á contado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...




Entre Doir' e Mynn' en Portugal morava

un mercador [rico] muito que amava

Santa Maria e por ela fiava,

e ena servir sempr' era seu cuidado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...

Como quer que el pelas terras mercasse,

se dõa fremos' e aposta achassee

que pera o altar lle semellasse,

de lla aduzer era muit' entregado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...

Porque amava muito Santa Mariade coraçon,

disse ca en romaria

a Rocamador de bõa ment' irya

tanto que o el podess' aver guisado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


Assi foi que el ssa nav' ouve fretada

pera yr a Frandes; e essa vegada,

pois que ouve ben sa fazenda guisada,

foi-sse con quant' aver avia mercado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...




Mais pela costeira do gran mar d'Espanna

ind' aquela nave con mui gran companna,

levantou-s' o mar con tormenta tamanna

que muito per foi aquel dia irado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado


Levantou sas ondas fortes feramente

sobr' aquela nave, que aquela gente

cuidou y morrer, que logo mantenente

chorou e coidou enton y seu pecado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E o mercador eno bordo da nave

estava enton encima da trave,

e ha onda vo fort' e mui grave

que lle deu [no] peit', e no mar foi deitado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


A nav' alongada foi, se Deus me valla,

del ha gran peça pelo mar, sen falla;

mai-lo demo, que senpre nosco traballa,

quisera que morres y log' affogado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...

El andand' assi en aquela tormenta,

nenbrou-sse da Virgen que senpr' acrecenta

eno nosso ben; ca pero que nos tenta

o demo, non pode nosc', a Deus loado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


«Ai, Madre de Deus,» diss' el, «teu ben m'ajude,

tu que es Sennor santa de gran vertude;

pois a todo-los coitados dás saude,

nenbra-te de mi que ando tan coitado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


Sennor, por merece non me desanpares

por algu tempo t' eu fazer pesares,

e se mi ora daquestas ondas tirares,

servir-t-ei eu sempr' e farei teu mandado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


Nenbra-te, Sennor, que t' ei eu prometudo

d'ir aa ta casa, est' é ben sabudo;

mas tu, dos coitados esforç' e escudo,

val-me, Sennor, ca muit' and' atormentado.»

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...



El esto dizendo, log' a Virgen santa

vo, que o dem' e seus feitos quebranta;

come Sennor bõa que os seus avanta,

fora d' ontr' as ondas o ouve tirado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E fez enton y gran maravilla fera,

ca tornou o mar mansso de qual ant' era.

Se ll' el algun tempo servijo fezera,

mui ben llo per ouv' aly gualardõado

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E levou-o salvo a terra segura,

que sol non sentiu coita nen rancura;

esto fez a da virgdade pura,

que por nos viu seu Fillo crucifigado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E ante dez dias, oý por verdade,

que a nave foss' a aquela cidade

u portar avia, pola piadadede

Santa Maria foi el y chegado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E tanto que os da nav' aly chegaron,

poi-lo viron, todos sse maravillaron;

e os seus enton mui ledos per tornaron,

e contou-lles el quant' avia passado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...


E o mercador, pois se tornou de França

e feien ssa terra, sen longa tardança

a Rocamador se foi, e confiançana

Virgen sempr' ouv'. Ei-vo-lo acabado.

A [de] que Deus pres carn' e foi dela nado...

Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Cantigas_de_Santa_Maria/CCLXVII"




Primeiro Saint-Michéle, depois Rocamador , amanhã Lourdes...nem de propósito,... são os três maiores santuários de França. Haja esperança e Fé !





Aproximadamente 400km

Viajar

“Viajar é como estar sentado diante de um quadro que actua sobre a pessoa como um pano de fundo, a enquadra e dá uma direcção à sua viagem.
Também se poderia pensar (experienciar) como um estado em que espaço e tempo se diluem um no outro. Sente-se a viagem como uma paralisação, uma constante, um caos, que surge com uma determinada precisão que não é, contudo, percepcionada como verdadeira devido à passividade do viajante.
Este regista e recolhe o que experiencia. O efeito interior dos seus conceitos éticos determina aquilo que ele procura na viagem.”
Luc Tuymans

Viajante

« Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?

E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.»

(Italo Calvino, Le Città Invisibili)
posted by Rui Cóias at Terça-feira, Abril 28, 2009

Le Roque Gageac

22.08.08 - Dia_19
Meses antes de partir nesta viagem, tinha estabelecido incluir Le Roque Gageac, na região turística do Périgord, como rota obrigatória,...foi aliás, a única rota verdadeiramente prédefenida. Fui então sensibilizado por algumas imagens e breve expressão da contemplação de um turista e internauta brasileiro.
Sonhava com um lugar paradisíaco, onde restabelecer-me dos kilómetros e emoções dos vinte dias de viajem já decorridos. Estava longe de imaginar, que estava a chegar ao terceiro maior destino turístico de França,...naturalmente preenchido por uma imensa rebelião de massas de ansiosos por um pedaço de paz e sossego.

Uma As, que era afinal o parque automóvel mais privilegiado e avançado sobre a village, dentro do parque-jardim,...e naturalmente cheia, ou quase,... sobrava na hora certa, um lugar de eleição.

A particularidade e estranheza de um clima tropical, com vegetação luxuriante a condizer,...graças à inércia térmica da encosta argila-xistosa, virada a sul, que abriga e aquece o agmolerado.



Dá uma vontade imediata de geladar, o mais possível.


Depois é a fila para embarcar, rio abaixo,... ouvir de pé a Guia-esposa, do Timoneiro sentado, não dizer, rio acima, que têm ali uma daquelas empresas, onde se ganha dinheiro à fartazana, sem colaboradores nem esforço, nem inovação (talvez até excessivamente monótono) e,...fecham em Outubro para reabrir em Abril do ano seguinte. O resto do tempo são férias...




E acontece um passeio deslumbrante.








Um rio cheio de canoistas...




Um camping banhado por uma praia fluvial...




Um passeio à descoberta do lugar,...



E no dia seguinte a canoa e o rio seriam meus,...mas em vez disso, Pé-de-vento descobriu que afinal Rocamador (o segundo maior destino turístico de França) era afinal ali ao lado,... e eu que detesto excursões, senti-me no dia seguinte, como se às ordens de um qualquer chauffer de camioneta, a fazer setenta penosos kilómetros,... para a ver Santa.



Roque Gageac

Ségur / St.Robert / Turenne / Collonges-le-Rouge

21.08.08 - Dia_18

Magnac, ofereceu-nos um lugar de pernoita em área de serviço, porventura, como deviam ser todas as AS,...um pequeno parque de jardim à entrada da vila, um lago feito pateira e um parque de merendas onde a gosto os passantes se alimentam e alimentam a bicharada que sem complexos se oferece por companhia.

Não fora a conhecida paixão dos franceses pela vida ao ar livre,...paixão claramente expressa nas esplanadas sempre cheias em pleno inverno, mantidas a aquecedores,... não fora essa conhecida paixão, seriamos levados a pensar haver um generalizado e forçado recolhimento financeiro familiar por terras de França.
Tanta é a gente, (jovens e menos jovens), que se encontra nestas paragens de lancheira no porta-bagagem,...frequentemente se observa, em plenas áreas de serviço de auto-estrada, o estender da manta e do farnel sobre o relvado,... por vezes até, sem admirações ou estranhezas, frente a um restaurante que está às moscas.


Nestes frequentes encontros, não se consegue deixar de registar a maior simplicidade dos carros e familías em circulação em estradas de França, e por compararação, o contráste com a ostentação dos modelos e marcas que circulam em Portugal, onde a lancheira é coisa completamente demodé...(e mais moderno e benzzoca, é pedir emprestado, para ir de férias).


Os Franceses são tradicionalistas,... como se observa na incansável petanca, com que todas as gerações se exercitam e convivem.

Os caminhos que hoje nos hão-de conduzir a um périplo por algumas das mais famosas Villages de France, são estreitos,...caminhos rurais, em terras de Limousine, bordejadas de um verde tão intenso que o diafragma das máquinas fotográficas, por mais que se feche, recusa a captar em nome da simultânea e intensa luminosidade que nos invade,... a parecer irreal.





Na Borgonha,... a região mais "pobre" de França, a produção bovina, e a fruticultura ocupam a terra,...não há abandono, nem desertos.



Ségur Le Château, é a primeira das villages do périplo,... a medieval Ségur, bem poderá orgulhar-se de seus habitantes que a conservaram, a ponto de por ela nascer um interesse turístico,que enche as ruas e as esplanadas e que já dá emprego até para brasileiro,...a quem calhou a "sorte" de nos servir, simpáticamente, um excelente pedaço de javali.










Saint-Robert,... aldeia que se seguiu, nas fronteiras do Périgord, fica num planalto onde sobressaí a igreja do século doze, deambulatório para peregrinos de Compostela.











Turenne, deve o nome a um visconde cuja família teve aqui durante séculos um pequeno Estado soberano. Do passado permanece na parte superior do aglomerado, os restos de três corpos e uma torre quadrada que protegia o castelo. Sobre as ruas pavimentadas com pedra irregular, casas construídas em torno de pequenas praças, que se sucedem, com muitas e belas casas antigas.
A aldeia mantém dois monumentos: uma universidade do século XVI e a capela dos Capuchinhos do século XVII.










Collonges-Le-Rouge, é uma extraordinária visão medieval: vermelho e rosa.

Com todas as construções em blocos de arenito vermelho maciço oferece-se como um lugar recôndito para paixões e apaixonados pelo pôr do sol.
A Village, de aspecto e côr tão invulgar, mantém, senão mesmo reforça hoje, um carácater essencialmente aristocrático.

É uma vila de visita obrigatória, desde sempre,... como evidencia a linha de caminho de ferro que lá conduz e termina.








Iremos ainda hoje, pernoitar (dormir) a Le-Roque-Gageac, onde passaremos os próximos dois dias,...lugar considerado o tereceiro mais concorrido destino turístico de França, depois de respectivamente Saint- Michel e Rocomodoro.


Aproximadamente 182 km

Poitiers - Futuroscop

20.08.08 - Dia_17

Confesso que não sou nada entusiasta de parques temáticos, parques de diversões ou congéneres, mas depois da agradável surpresa com Puy de Fou,...lá fomos (em silêncio) dormir ao Futuroscópio. Eram duas da madrugada quando estacionámos ao lado de muitos outros autocaravanistas, numa imensa área de serviço que lhes é dedicada. Depois de nós ainda havia muita gente para chegar...

Pensava : "faz tantos anos anos que esta coisa foi inaugurada, que deve ser muito mais do passado que do futuro ",...mas com o passar do tempo lá fui descobrindo em cada novo pavilhão renovados motivos de interesse até à completa surpresa e satisfação,...não própriamente com os pavilhões, que apesar dos anos não deixam ninguém indiferente....






A opção na revelação cénica do "passado, presente e futuro", em projecção cinematográfica, por vezes em desafios de banda desenhada interactiva, outras em constatações documentais históricas ou de vida natura, sempre de forma envolvente e integradora dos espectadores, numa revelação e abrangência tridimensional,...nunca vi nada igual como 3D, nem sabia possível...

Esmagadora a qualidade das animações 3D, só possível em anfiteatros de geometria cúmplice com a projecção. O Futuroscop é afinal uma miríade de anfiteatros especificamente concebidos para projecções cénicas tridimensionais absolutamente envolventes,...de um realismo,por vezes improprio para cardíacos.






Ao longo de um dia completo não conseguimos mais do que ver cinco projecções, todas absolutamente fascinantes, desde uma viajem ao fundo dos oceanos, à corrida de helicóptero pelas cataratas do Niágara, ao boneco que parece ter saído da tela só para nos cumprimentar,...no fim, sobra o lamento pelo tempo não chegar para tudo.




O fim do dia chega com um outro espectáculo cénico em projecção, sobre um espelho de água e uma miríade de repuxos,....surpreendente!


E vimo-nos embora com a certeza de que vale a pena lá voltar, por mais tempo, no minimo dois ou talvez três dias para ver e rever,...afinal entrámos em silêncio e saímos boquiabertos.

O Futuroscópio está para durar !


E nós vamos voltar, para já o caminho é direcção Limoges...


Aproximadamente 156km até Magnac